quarta-feira, 24 de setembro de 2014
No barquinho, Roldão Macário ajudou os mergulhadores no mapeamento do fundo da represa, alagada fazia vinte anos. Orientava-se pelo sol e pelos cumes secos dos morros. Lá a igreja, ali os currais, rua de cima, rua de baixo, tudo casa de peixe agora. Em retribuição e de farra, os bombeiros lhe deram uma aula de mergulho. "Um batismo", eles disseram, sem saber a extrema-unção: na primeira chance que teve, mão no equipamento, Roldão desceu 30 metros até o cemitério, se amarrou ao túmulo de Auxiliadora, apagou a lanterna e ficou lá na escuridão, esperando o ar acabar.
Que nunca fora homem de quebrar promessa.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
E no décimo terceiro bilionésimo dia, Deus arrancou todas as folhas das árvores que restaram sobre a Terra, enrolou-as em nuvens tóxicas, acendeu no sol e ficou lá pitando, esperando o pessoal acabar de se devorar. Não com pesar, tampouco regozijo, mas antes preguiça: pois era domingo, e na segunda ele iria começar tudo de novo.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Encontraram-se pela primeira vez em 20 anos no estacionamento do Pão de Açúcar da Santo Amaro. Ele professor <na cidade para um simpósio>, casado, duas filhas. Ela advogada <trabalhista é um saco>, divorciada, dois filhos, um buldogue francês. Falaram por 9 minutos, despediram-se quase afetuosamente, viraram as costas e foram cada um continuar a viver o avesso dos seus sonhos.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
No furor do camarim apertado, fumaça ardendo os olhos, gargalhadas estalando, copos tilintando, o baterista matusquela confidencia ao cantor, companheiro calvo balofo de 20 anos de palcos e roubadas.
- Prefiro isso aqui, sabe? Que nem sexo. Prefiro as preliminares.
- Eu também. E um cigarrinho depois.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
O velho carregava duas pedras de tamanho similar, uma em cada mão, as pernas fortes e tortas e determinadas na caminhada matinal.
Na volta seguinte não o vi mais na pista de saibro, apenas o boné, boiando no lago abaixo da ponte.
(ali tinha alguma coisa, invisível, mais pesada que as rochas)
Estiquei um galho de árvore e puxei o boné.
Meio largo na minha cabeça.
Mas no meu pai serviria bem.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Das quatro que dividiam república na Avenida Rio Branco
Cibele engravidou no primeiro ano de faculdade, trancou, casou, voltou e agora é repórter editora fotógrafa diagramadora em um jornal semanal de Ubá, MG.
Tati repetiu cálculo III quatro vezes, mas se formou e ilumina minas de carvão em Candiota, RS.
Ana Paula é psicóloga no papel, mora com os pais e ganha a vida dando aulas de inglês no CCAA em Juiz de Fora, MG.
Carla se casou com o herdeiro de uma monstruosa fábrica de papel, passou as últimas férias (do marido) entre a Côte D’Azur, a Córsega e a Sardenha, e para seu maior talento não há diploma que faça jus.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)