quarta-feira, 18 de março de 2015






Bráulio montou um bar na sala de casa. E no Bar do Bráulio tinha tudo. Scotch de oito, dez e doze anos. E bourbon do Tennessee. E cerveja ele mandou trazer de 23 países diferentes. E tinha as nacionais também. E cachaça de Salinas, Parati, Viçosa e São João Nepomuceno. Então ele convidava o pessoal, e tinha jiló frito, linguiça de Rio Pomba, tapas, tacos e nachos. E a música também era boa naquele iCoisa dele.
No Bar do Bráulio tinha tudo que tem num bom bar de verdade.
Só não tinha o acaso.






quarta-feira, 11 de março de 2015






Josimar foi criado no estalo de folhas de fumo e na capina dos cafezais. Aos 8 juntou troco pra comprar chuteira. Nas peladas de domingo pelejava pra dar o laço no calçado, mas não conseguia da forma convencional. Então inventou seu próprio jeito de fazer a amarração. Hoje dono de uma loja que vende e aluga vestidos de noiva, é conhecido pelos mais perfeitos laços de cintura de toda a cidade. Às vezes, à noite, silencioso no quartinho dos fundos de casa, continua tentando aprender, em vão, o jeito tradicional de se atar um cadarço. É que não aceita que algumas pessoas nascem para aquilo, e outras, para isso.






terça-feira, 10 de março de 2015






Quando acordou, o dedo em riste estava lá: - Você    n  u  n  c  a    pula Dazed and Confused, tá certo?






terça-feira, 3 de março de 2015







... e nunca mais fitarei seus olhos, pois quando eu tornar a esta metrópole envenenada por cimento e chumbo, você os terá arrancado para não me ver chegando vestido de chão.












Deliciosa essa sua boca mentirosa.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015






É hoje. Às duas eu declaro minhas piores intenções.
A não ser que uma falte.






quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015







Terêncio e Sandra eram um tipo muito peculiar de vampiros. De tempos em tempos, trocavam de amigos, alimentando-se de sua juventude e do frescor das novidades que traziam. Sem jamais mudar seus próprios comportamentos, andaram com beatniks, hippies, punks, grunges e hipsters, mantendo relações sempre superficiais, de modo que pudessem descartar o antigo tão logo o novo acenasse da janela. Hoje, irremediavelmente velhos e desinteressantes, arrastando-se entre móveis de todas as épocas no palacete art decó no centro da cidade, sem ninguém mais para apartá-los, sorvem lentamente o amargor do inferno de suportar um ao outro pelo que lhes resta de eternidade.








quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015







Com o amor agora ele só brinca no berço.
E afoga-o no primeiro banho.
Até que outro nasça.












Da morte, o fato em si, nada a reclamar.
Só me dói é que eu tinha ingresso praquele jogo contra o Grêmio.







quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015







Quando Gustavo enfiou sua moto embaixo de um caminhão, levou três semanas para alguém começar a acreditar realmente que ele sobreviveria. Quatro meses depois ele saiu do hospital em uma cadeira de rodas, com pinos e parafusos cravados em todas as partes do corpo e armações de ferro expostas em suas coxas e canelas. Mais dois anos e ele já estava jogando futebol uma vez por semana. Até hoje Gustavo acha que não limparam direito sua testa quando o costuraram, então tem a impressão de que há pequenos cacos de vidro e micropedrinhas por baixo da pele. Nas primeiras noites após sair do coma, ele ouvia algo como uma porta rangendo dentro da cabeça, mas ninguém nunca soube precisar o porquê. O barulho continua, noite após noite, mas hoje ele nem reclama mais, pois sabe que é a Morte a rilhar os dentes de raiva por tê-lo deixado escapar.