quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
Acordou e era sangue pra todo lado.
No lençol. Nos travesseiros.
Marcas de mãos ensanguentadas na cabeceira da cama.
Em seu peito.
Em sua barriga, suas coxas.
Em suas mãos, por baixo das unhas.
Corpo, só o seu. Ileso.
Se deu conta do gosto de sangue na boca e, pisando em garrafas vazias e camisinhas virgens, tropegou até o espelho.
A barba escarlate.
Amém.
Aquela pelo menos não ficaria grávida.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Tinho anda sete quilômetros todos os dias para ir e voltar do trabalho. Assim ele economiza o vale-transporte, que vende para a patroa da esposa, diarista, e faz um extra. Sentado no parque municipal nesse domingo raro, ele não entende as pessoas em seus tênis supercoloridos caminhando e suando em torno do lago sem chegar a lugar algum.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Gil e Flávia se conheceram numa terça e, na sexta, estavam serpenteando pela Serra do Rio do Rastro em cima de uma Yamaha XT 225, e depois Passo Fundo, Santa Fé, Córdoba, Mendoza até alcançarem Valparaíso, parando para abastecer o tanque de 10 litros, trocar o óleo e alguma peça quebrada, dormindo em albergues, campings e pensões. Experimentaram uma felicidade tão absoluta que, pela primeira vez em suas jovens existências, tiveram medo de morrer. Então decidiram fazer o caminho de volta de ônibus e até a presente data não se tem notícia de que tenham subido novamente em uma moto.
...
A XT permanece estacionada em um cantinho do Mirador Esperanza, um monumento de ferrugem e borracha que turista algum é capaz de compreender.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Era a mesma coisa todo ano há sabe-se lá quantos anos. Nos primeiros dias de aula da turma do pré-vestibular ele contava a história de quando, "assim na idade de vocês", foi levado pelos amigos a um prostíbulo. E que, abordado por uma das moças, desconfortável naquele ambiente pouco católico, disse a ela:
- Pra mim você não passa de uma latrina, uma privada onde os homens vão e fazem suas necessidades.
E então dizia o quanto ficara arrependido por ter sido tão duro, coitada dela. Contava isso em tom grave e, consternado, pedia licença e se retirava do púlpito em direção ao banheiro, onde batia uma punhetinha pra gozar a culpa.
domingo, 23 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Tonho cismou de fazer pra si um gibão, como os dos vaqueiros do nordeste, mas tinha que ser de couro de mula sem cabeça. Há mais de 30 anos ele campeia a região atrás do bicho, noite sim, noite não, sem jamais encontrar. Nem um rastro, nem um boato, nada. Mas ele persiste. O pessoal faz chacota, acha graça, principalmente os mais antigos, porque eles melhor que ninguém sabem que desde o dia em que instalaram o primeiro poste de luz no povoado nunca mais uma diaba daquela foi vista por estas bandas.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Não aguentou a emoção de enterrar o próprio marido, dizem. Foi só a ambulância cruzar os portões do cemitério em direção à rua e o coração explodiu, fulminante. É que a morte, ceifadora muito viva, sabe que toda necrópole não passa de uma plantação de cadáveres e, portanto, não há nada que lhe sirva para além daqueles muros.
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